Como conseguir uma entrevista, se você é mulher e está fora do mercado há algum tempo? - Espaço da Carreira
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Como conseguir uma entrevista, se você é mulher e está fora do mercado há algum tempo?

predios altos com o pôr do sol

Poder conversar com você sobre cada momento profissional é muito especial para mim, porque ele diz do que você está vivendo. Este, particularmente, embora eu não o tenha vivido, chama a minha atenção, primeiro porque tive a oportunidade de realizar muitos atendimentos de carreiras a mulheres, algumas senhoras, que viveram este momento, e também pelo fato de ele reunir três aspectos que, infelizmente, ainda deixam a mulher em desvantagem no mercado para um percentual alto de empresas: o próprio ser mulher, a maternidade e a idade. Mas antes de tudo, gostaria de agradecer à estudante de Psicologia e profissional que mandou um e-mail para o Espaço da Carreira compartilhando o seu momento. Ela afirmou que está há muitos anos fora do mercado porque precisou (ou decidiu) se dedicar ao seu filho, depois entrou no curso de Psicologia e hoje deseja atuar na consultoria de recursos humanos e na clínica. Não tenho mais informações para além do que estou aqui compartilhando e não posso compartilhar o seu nome, mas fica o imenso agradecimento a essa grande contribuição! Espero que a ajude de alguma forma no seu momento!

Para começar, vamos a alguns dados para conversarmos sobre isso! Este caso me lembra toda a trajetória feminina em sua ontogênese, ou seja, toda a evolução da mulher como mulher dentro da sociedade e da cultura ocidental (principalmente). Dados do IBGE (2017) mostram que embora as mulheres sejam maioria em nosso país, 51,03%, o crescimento da população feminina em postos de trabalho entre 2007 e 2016 foi de 40,8% para 44%, respectivamente. Apesar do pouco aumento para o período, é um fato a ser comemorado, se olharmos para trás e vermos que o papel social da mulher na época da primeira Revolução Industrial era essencialmente o de cuidar da casa, do marido, dos filhos e o homem era o único provedor, quem determinava, sabia e decidia sobre tudo, principalmente finanças, estudos etc. A primeira mulher no Brasil a ter uma graduação foi Rita Lobato Velho Lopes, no ano de 1887, que se formou em Medicina pela Faculdade de Medicina da Bahia. Nessa época, para você ter uma ideia, nem banheiro feminino existia nas universidades. Se compararmos aos dias atuais, segundo dados da Demografia Médica (2018), as mulheres já representavam 57,4% dos profissionais dessa área com até 29 anos de idade (SBC COACHING, 2019).

Um outro dado muito relevante de mostrarmos, antes de falarmos sobre maternidade e a própria idade, ainda é a diferença salarial existente entre o homem e a mulher, apesar do seu nível educacional mais alto muitas vezes. Segundo dados do IGBE (2018), do estudo de “Estatística de Gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, as mulheres ainda trabalham cerca de 3h a mais por semana do que os homens, considerando desde atividades com trabalho remunerado, a atividades domésticas e ao cuidado de pessoas, e mesmo contando com um nível educacional mais alto, recebe 76,5% do rendimento médio dos homens. Embora essa diferença tenha caído ao longo dos anos, isso significa que enquanto rendimento médio do homem é de R$ 2.306,00, o da mulher fica na casa de R$ 1.764,00 (SBC COACHING, 2019).

Uma das explicações para essa diferença é a representatividade feminina nos postos de liderança, que ainda segundo dados desse mesmo estudo, nós mulheres representamos 39,1% dos cargos gerenciais e esse percentual reduz com o avançar da idade. Além disso, a dedicação da mulher aos serviços domésticos, incluindo cuidado do marido, dos filhos, dos pais, dos avós e de outros familiares, é em torno de 18h médias por semana, o que representa uma carga 73% maior que a do homem. Fico triste em dizer que no meu Nordeste, esta diferença ainda é maior, em torno de 80% (IBGE, 2018).

Chegando na maternidade, analise o simples fato de que por Lei, são garantidos 120 dias às mães para a Licença Maternidade e 5 dias para os pais. Nas empresas Cidadãs, são 180 dias para as mães e 20 dias para os pais (RECEITA FEDERAL, 2019). Então, pergunto: por que essa discrepância no cuidado se sabemos da imensa importância nos primeiros anos da criança, principalmente no primeiro ano, das funções maternas e paternas? Por que o maior tempo para a mulher?

Assim, como a mulher conseguirá se recolocar no mercado, como é o caso da pessoa que me mandou o e-mail após passar muitos anos fora dele, dedicando-se ao seu filho e estar iniciando uma nova carreira? Como sempre digo aqui, vamos conversar sobre possibilidades e nunca compreender o que está escrito como algo pronto e acabado, como uma receita de bolo, esse não é o objetivo. O objetivo é que você que está lendo, consiga refletir sobre as suas possibilidades dentro do seu contexto.

Uma primeira reflexão é a de analisar com as suas redes de contato as possibilidades de recolocação. A indicação nesse caso específico pode ajudar muito nesse processo, uma vez que aquela pessoa tem o conhecimento da sua história, do seu fazer profissional e se ela tem o contato e está disposta a te indicar, destacando as suas competências e possibilidades de desenvolvimento profissional para a empresa, respeitando quem você é o momento em que você está, você tem uma excelente oportunidade nas mãos. Você compreende que aqui estamos falando sobre seu networking, sua rede de contatos, não é? Pode ser desde outra mãe amiga, outro familiar, amigos de amigos, enfim, mas lembre-se de que isso é uma construção. E uma construção que você pode iniciar agora!

Outra reflexão é que com a reforma trabalhista (não julgando se ela foi boa ou não foi, até porque quem teve os seus direitos perdidos irá considerá-la como ruim e quem teve os seus direitos e ganhos garantidos, como maravilhosa para o país, essa não é a discussão aqui neste momento) e a reforma da previdência (idem ao comentário que falei acima sobre a reforma trabalhista), outras maneiras de retornar ao mercado se fazem presentes e talvez até necessárias. Aqui questiono: será que a sua única opção é ingressar CLT dentro de uma empresa? Será que você não conseguiria até muito mais como profissional liberal, MEI (Microempreendedor Individual), PJ (Pessoa Jurídica) dentro do que você deseja atuar? Não é simples, não podemos simplesmente colocar isso aqui como se fosse assim, decidi empreender e em 3 meses terei sucesso e ganharei até mais do que eu ganhava como CLT. Tudo é uma construção.

Analise o que você consegue fazer, a sua rede de contatos, suas relações, quem pode te ajudar. Se a sua opção no momento for a recolocação formal, pesquise sobre empresas que incentivam a contratação de pessoas da sua idade, se você já tiver mais de 40 anos, por exemplo. Empresas que incentivam a contratação de mulheres, que enxergam na maternidade ganhos para a mulher, para o seu desenvolvimento profissional. Semana passada vi uma postagem no LinkedIn de uma mulher que foi promovida a um cargo de liderança com 8 meses de gravidez. Claro que a empresa utilizou isso como um marketing, claro que não sabemos a construção que aquela pessoa fez, mas é importante para dizer que existem empresas que estão começando a pensar diferente do passado e a querer construir um novo futuro (não por ela ser “boazinha”, mas porque faz diferença na produtividade e na motivação). Na notícia, o RH falava sobre a importância da maternidade, no sentido de competências que a mulher desenvolve para assumir cargos de liderança.

Se o seu caso está relacionado à idade, como por exemplo, você além de ter ficado fora do mercado, é mãe e tem acima de 55 anos, algumas instituições no país estão com programas de “senhores estagiários”, como no filme “Um senhor estagiário” (se não assistiu, assista, é muito interessante sobre este tema que estamos conversando), a Unilever e o Itaú são exemplos disso (não é propaganda, apenas para que você possa pesquisar e vejam se faz sentido para você, inclusive esse tipo de realidade organizacional). Isso é muito relevante porque considera a experiência que é tão rica nas organizações que hoje são formadas em sua maioria por geração Y (nascidos no fim dos anos 70 e início dos anos 90) e Z (nascidos entre 1992 e 2010) (SUCESSO JOVEM, 2019).

Eu acredito que a diversidade sempre nos enriquece como seres humanos, porque ali temos a possibilidade de pensarmos como humanos, considerando quem age e pensa diferente de nós, quem nos tira da zona de conforto, quem nos instiga a ter mais paciência, a nos fazer reaprender a sermos políticos (no sentido da pólis grega, no sentido de dialogar, de realmente conversar, de encontrar um bem comum). Outra reflexão é que quando estamos com iguais o tempo inteiro (seja no sentido de gênero, raça, cor, saúde, idade, religião), passamos a considerar que apenas a nossa perspectiva é a “certa”, a “real”, e mesmo que digamos que não é assim, que ouvimos o outro ou “até temos amigos assim...”, estamos verdadeiramente dizendo que apenas toleramos, quando na verdade, precisamos fazer muito mais do que isso, precisamos aceitar e aprender a nos relacionar compreendendo que este outro, mesmo parecendo igual, sempre será diferente.

Assim, no sentido mais prático do processo, você que está fora do mercado há muito tempo precisa se qualificar no que a sua atuação vem solicitando, no sentido de competências técnicas e comportamentais. Se você tem condições de investir, você pode fazer formações específicas para a sua atuação profissional. No caso da nossa amiga que mandou o e-mail, ela pode fazer um plano onde ela fará formações em mentoria, em coaching (já que no sentido organizacional é de extrema relevância e eficácia), formações de Business Partner (BP), de Liderança, de Processos (porque ela quer consultoria), desenvolvimento de pessoas com a formação de orientação profissional e de carreiras (o Instituto do Ser, onde fiz a minha, é uma das boas referências no país sobre isso). Sua pós poderá ser em negócios, já que ela está fazendo psicologia e deseja ser consultora de RH. Se for para o âmbito clínico, iniciar com grupos de estudos na abordagem que ela escolheu, pode ser uma boa opção. Fazer formações específicas que permitam o estágio, dentro das abordagens, fazer especializações clínicas. O quanto você pode aproveitar da universidade, faz toda a diferença como conversamos no último artigo. E se não tem como investir, aproveite as plataformas de cursos online gratuitos ou a baixo custo (Prime Cursos, FGV Online, Cursos 24h, Cursos do IEL, CIEE, Portal da Educação, dentre outros).

Por fim, como dito nos outros artigos, uma boa estruturação de currículo (direcionado), um plano de carreira onde você consiga antes construir esse seu novo projeto de vida, porque antes da sua carreira é a sua vida que está em jogo, associado a um LinkedIn bem estruturado e a uma construção saudável de laços e redes sociais, podem te ajudar muito nisso. Quando você consegue falar, refletir sobre o seu projeto de vida, mesmo que isso angustie, você consegue perceber seus medos, vir o que é o que não é real neles, e isso pode te servir como fator motivacional (no sentido de motivo e ação) para realizar o que você descobriu que deseja. O plano ajuda para que você consiga perceber o aspecto de que é uma construção e não deixar a ansiedade passar dos limites e não te ajudar a realizá-lo. Se não conseguir sozinha ou sozinho, peça ajuda, seja de um psicólogo, de um profissional de orientação de carreira, mas siga, continue andando.

Algo semelhante acontece com as pessoas que estão próximas a se aposentar, que estão inseguras com o seu futuro que ao mesmo tempo em que parece próximo, também parece distante com todas as mudanças que vêm ocorrendo no mercado como um todo. Mas como estamos finalizando hoje a conversa sobre os momentos profissionais, vocês conseguem perceber que em todos os casos encontrar o sentido da sua vida, o seu para quê no mundo e o seu para quê no trabalho, na sociedade, auxilia inclusive você a persistir diante dos obstáculos e das frustrações, que sempre vão ocorrer, faz parte da sua existência? Esse sentido não é estático e nem único, você o vai encontrando no decorrer das suas vivências.

Quando mudei para Belo Horizonte, por exemplo, tive que reencontrá-lo. Ainda o estou encontrando e assim seguimos. Mas é esse sentido, que nos faz ter um projeto e amar alguém ou algo, criar algo e saber que no sofrimento também se pode encontrar esse sentido (como no caso das pessoas que perdem seus filhos e encontraram algo que as fazem continuar a viver e a ajudar outras pessoas, por exemplo). Não é fácil, cada um tem os seus recursos internos para isso, mas estou te dizendo que essas possibilidades existem e que encontrá-las pode mudar totalmente a sua perspectiva e a maneira de agir no mundo com os outros e, principalmente, consigo mesmo.

Espero que tenha ajudado de alguma forma! Mais uma vez obrigada à colega que mandou o seu caso! E na próxima semana, trabalharemos a Estruturação do currículo competitivo e direcionado! Mesmo quem já fez o processo de orientação comigo, leiam esse material, sempre trago coisas novas, novos insights, e é igual a um livro que sempre o relemos, vemos novas coisas a cada releitura. Abraço e até a próxima segunda!


Recapitulando

Nesse artigo, você aprendeu/revisou/reviu sobre:

  • Possibilidades e estratégias para ser chamado(a) para uma entrevista, direcionado ao momento profissional “Você é mulher, está fora do mercado há um tempo e deseja se reinserir”;
  • Construção social da mulher;
  • A importância de saber onde você se encontra e o que pode fazer enquanto mulher para essa reinserção;
  • As diferentes formas de reinserir, de reconstruir a sua carreira;
  • O encontro do sentido da sua vida e do seu trabalho.

Reflexões

  • O que você considera como sendo o sentido da sua vida hoje? O que te faz acordar todos os dias e superar tudo o que você vem superando?
  • Qual o sentido que o trabalho tem para você?
  • Como você se enxergava antes de ler esse texto e como você se enxerga após ler esse texto? Fez alguma diferença? Fez você pensar em coisas que não pensou antes? Fique à vontade se não pensou?
  • O que você acredita que precisa e pode fazer hoje para alcançar essa sua reinserção se você está nesse momento? Escreva, desenhe, faça ao seu modo, de maneira que você consiga refletir sobre isso.

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Autora

Joseli Quaresma

Fundadora do Espaço da Carreira e Orientadora Profissional e de Carreira.